No ano passado, 2008, foi comemorado os 100 anos de integração entre Brasil e Japão, um relacionamento que teve início quando as primeiras 165 famílias japonesas chegaram na cidade de Santos, conduzidos pelo navio Kasato Maru, em 18/06/1908. Após este evento, diversos outros grupos de japoneses aportaram no Brasil e mais tarde foi a vez dos brasileiros descendentes realizarem a rota contrária, retornando ao país de onde seus antepassados vieram.
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| Imagem criada por Andre Guilherme para o livro: "Nossas Raízes - 100 anos de Integração Brasil e Japão" da Escola Comunitária Paulo Freire, Toyota - Japão (2008) [1] |
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| Apresentação de uma Escola de Samba, durante o evento do Centenário da Imigração "Viva! Brazil Day!" (foto: Clau Smith, 2008) [2] |
Ao longo destes 100 anos, o fluxo migratório variou muito, de ambos os lados, guiados pelos padrões econômicos e mudanças nos acordos de imigração entre os dois países. No início, a grande maioria dos descendentes que chegavam ao Japão, tinham algum conhecimento da língua e dos costumes locais, pois haviam recebido grande influência cultural de seus pais imigrantes. Com o passar dos anos este laço cultural foi tornando-se cada vez mais fraco e hoje grande parte da comunidade brasileira, estabelecida no Japão, não está habituada aos costumes ou mesmo conhece a língua do país.
Isto, de certa forma explica os conflitos existentes entre brasileiros e japoneses, que pode ser observado nas regiões onde a comunidade verde-amarela se faz presente em número representativo.
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| Tóquio a noite (foto: Clau Smith, 2008) |
Segundo dados da Embaixada do Brasil em Tóquio, atualmente, cerca de 320 mil nipo-brasileiros vivem em território japonês, sendo esta a terceira maior comunidade brasileira no exterior[3].
Apesar dos 100 anos comemorados com muitas festas e discursos oficiais, proferidos pelas autoridades de ambos países, a convivência entre brasileiros e japoneses está longe de ser um mar de rosas e sim repleta de episódios conflitantes, muitos dos quais poderiam ser explicados pelas grandes diferenças culturais entre estes dois povos. Outros porém, tem raízes mais profundas: o preconceito que os japoneses nutrem pelos estrangeiros que vivem em seu território.
Apesar de, a primeira vista, o Japão parecer um país bastante receptivo as outras culturas, dado ao volume de estrangeiros que podemos observar perambulando pelas ruas de suas grandes cidades, ele possui uma face mais tradicional e conservadora que muitos tem classificado como preconceituosa.
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| Aviso em loja japonesa proibindo a entrada de estrangeiros (Imagem retirada do site Janela Dekassegui [4]) |
Não são só os brasileiros que sofrem com o preconceito, mas também peruanos, chineses, coreanos, entre tantos outros. As manifestações, bem como as razões pelas quais ele existe, são diferentes entre as várias nacionalidades. Em relação aos coreanos e chineses, ela parece ser bem antiga e extremamente complexa, envolvendo histórias de guerras entre estes povos. Histórias estas que abriram feridas profundas e acabaram por moldar a maneira de agir e pensar destes povos.
Já os brasileiros enfrentam outros problemas no Arquipélago, relacionados mais ao seus padrões de comportamento que não se encaixam nos costumes dos japoneses. Sabe-se que, locais onde a concentração deles é grande, a comunidade japonesa está constantemente reclamando do barulho e da forma como os eles dispensam o seu lixo.
O aumento da criminalidade, em algumas cidades, é também associado a grande concentração de nipo-brasileiros. Em algumas regiões, as vezes, ocorrem pequenos delitos, pichações a mais raramente crimes onde eles estão envolvidos.
Já os brasileiros enfrentam outros problemas no Arquipélago, relacionados mais ao seus padrões de comportamento que não se encaixam nos costumes dos japoneses. Sabe-se que, locais onde a concentração deles é grande, a comunidade japonesa está constantemente reclamando do barulho e da forma como os eles dispensam o seu lixo.
O aumento da criminalidade, em algumas cidades, é também associado a grande concentração de nipo-brasileiros. Em algumas regiões, as vezes, ocorrem pequenos delitos, pichações a mais raramente crimes onde eles estão envolvidos.
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| Placa informativa no Conjunto Habitacional HOMI (foto: Clau Smith, 2009) |
Festeiro por natureza, devido a grande diversidade cultural que o originou, o povo brasileiro é bastante comunicativo, possuindo um comportamento social bastante diferente do japonês, que é mais introspectivo e reservado. Os brasileiros frequentemente recebem amigos em seus apartamentos e as vezes realizam pequenas festas ruidosas, coisa que raramente observamos os japoneses fazendo no seu dia-a-dia.
Não é difícil portanto, em pleno verão, encontrarmos as ruas de um bairro japonês vazias, após as 19 horas, em pleno silêncio. Nas pequenas cidades, na região mais interiorana, a impressão que sentimos a noite é de estarmos visitando uma cidade fantasma, dada a extrema quietude do ambiente. O mesmo não acontece nos locais onde os descendentes abundam por aqui, onde as conversas em tom mais animado, nestes horários, de certa forma incomodam as famílias que residem no local.
Na última Copa do Mundo, em alguns bairros, foram colocados diversos cartazes traduzidos para o português alertando para que os brasileiros se comportassem e não fizessem barulho (devido ao fuso horário, os jogos foram televisionados durante a madrugada por aqui). Mas, como todos sabem, o Brasil é a terra do futebol e brasileiro que é brasileiro gosta de jogos, principalmente dos da Copa. A solicitação não surtiu muito efeito e durante as partidas onde o Brasil jogou, foi possível ouvir fogos de artifícios as três horas da manhã.
O brasileiro também é um povo desafiador...
Não é difícil portanto, em pleno verão, encontrarmos as ruas de um bairro japonês vazias, após as 19 horas, em pleno silêncio. Nas pequenas cidades, na região mais interiorana, a impressão que sentimos a noite é de estarmos visitando uma cidade fantasma, dada a extrema quietude do ambiente. O mesmo não acontece nos locais onde os descendentes abundam por aqui, onde as conversas em tom mais animado, nestes horários, de certa forma incomodam as famílias que residem no local.
Na última Copa do Mundo, em alguns bairros, foram colocados diversos cartazes traduzidos para o português alertando para que os brasileiros se comportassem e não fizessem barulho (devido ao fuso horário, os jogos foram televisionados durante a madrugada por aqui). Mas, como todos sabem, o Brasil é a terra do futebol e brasileiro que é brasileiro gosta de jogos, principalmente dos da Copa. A solicitação não surtiu muito efeito e durante as partidas onde o Brasil jogou, foi possível ouvir fogos de artifícios as três horas da manhã.
O brasileiro também é um povo desafiador...
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| Eletrodomésticos abandonados na região do HOMI (foto: Clau Smith, 2007) |
O Japão possui uma coleta seletiva bastante complexa dos resíduos sólidos domiciliar, havendo inúmeras categorias de separação e diferentes datas de coleta, para tudo que é dispensado, as quais muitos estrangeiros não respeitam.
O lixo, de maneira geral, é considerado uma responsabilidade individual e cabe a cada cidadão a incumbência de separá-lo, acondicioná-lo e descartá-lo corretamente. Assim, existem dias certos durante a semana para jogar o lixo plástico, metálico, vidros, etc. Os materiais de grande porte como os eletrodomésticos (geladeiras, televisores, máquinas de lavar, entre outros), acarretam um problema adicional - é preciso pagar uma taxa específica e notificar ao órgão público responsável, para que seja devidamente recolhido.
Este sistema é um tanto confuso para alguém recém chegado ao país, ainda mais para os brasileiros que, muitas vezes provém de regiões onde nem mesmo existem coletas seletivas.
Em algumas cidades, nos bairros, onde os descendentes são encontrados as centenas, não é difícil encontrarmos lixo amontoado de forma irregular, que ali permanece durante meses, entulhado, até que a prefeitura decida fazer a sua coleta.
Este tipo de comportamento irrita os japoneses que, constantemente, espalham cartazes em português nestes locais, alertando sobre a forma correta de se jogar o lixo.
Numa sociedade onde o consumismo desenfreado é uma moda seguida cegamente por todos, onde é fácil comprar, não existe espaço para a reutilização de eletro-eletrônicos e tudo que é abandonado ao ar livre, ali permanece, não importando se esteja estragado ou em perfeitas condições de uso. As casas de consertos de equipamentos usados são raras e até mesmo inexistentes em muitas regiões e algo usado, dificilmente será comprado por outra pessoa.
Tristemente, os brasileiros se adaptam rapidamente a esta forma de vida, comprando produtos novos e se desfazendo dos antigos, que muitas vezes vão direto para o lixo.
Em algumas cidades, nos bairros, onde os descendentes são encontrados as centenas, não é difícil encontrarmos lixo amontoado de forma irregular, que ali permanece durante meses, entulhado, até que a prefeitura decida fazer a sua coleta.
Este tipo de comportamento irrita os japoneses que, constantemente, espalham cartazes em português nestes locais, alertando sobre a forma correta de se jogar o lixo.
Numa sociedade onde o consumismo desenfreado é uma moda seguida cegamente por todos, onde é fácil comprar, não existe espaço para a reutilização de eletro-eletrônicos e tudo que é abandonado ao ar livre, ali permanece, não importando se esteja estragado ou em perfeitas condições de uso. As casas de consertos de equipamentos usados são raras e até mesmo inexistentes em muitas regiões e algo usado, dificilmente será comprado por outra pessoa.
Tristemente, os brasileiros se adaptam rapidamente a esta forma de vida, comprando produtos novos e se desfazendo dos antigos, que muitas vezes vão direto para o lixo.
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| Bicicletas quebradas, abandonadas nos corredores dos apartamentos do HOMI (foto: Clau Smith. 2009) |
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| Lixo entulhado em bairro com grande número de moradores estrangeiros (Foto: Clau Smith, 2007) |
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| Pichação, na parede de um dos prédios do HOMI (foto: Clau Smith) |
A crise econômica e a comunidade brasileira
A crise econômica mundial, que foi duramente sentida pelo Japão, trouxe um agravamento na situação da comunidade brasileira frente aos japoneses. Com a redução drástica das exportações, muitas empresas realizaram grande cortes de funcionários e do dia para a noite, muitos estrangeiros ficaram desempregados. As empresas priorizaram os funcionários temporários para serem mandados embora, categoria esta que abrange a maioria dos brasileiros no Japão. A decisão não levava em consideração se o funcionário era recente ou se tinha um tempo considerável na empresa, mas sim o seu tipo de contrato.
Famílias inteiras ficaram desempregadas e impossibilitadas de conseguir um novo emprego, algumas delas até mesmo ficaram ser ter onde morar, uma vez que o imóvel que estavam utilizando pertencia a empreiteira responsável pelo contrato.
Rapidamente começaram a pipocar histórias sobre brasileiros que estavam passando fome e que, em pleno inverno, morando em carros e barracas.
Apesar do governo possuir apartamentos públicos, os quais poderiam acomodar os desabrigados com aluguéis mais baratos, o governo demorou a se posicionar favoravelmente aos estrangeiros. Na província de Aichi, por exemplo, foi alegado que a comunidade japonesa de alguns bairros, através de suas associações de moradores, declararam que não queriam mais brasileiros residindo no local. Segundo eles, os estrangeiros não respeitam as regras da disposição do lixo e são muito barulhentos.
Esta situação revoltou e dividiu grande parte da comunidade. Muitos foram as ruas protestar e revindicar seus direitos ao trabalho e moradia, outros formaram associações visando buscar um maior diálogo com os japoneses e procurar uma forma de consertar os problemas decorrentes desta convivência conflitante.
A crise econômica, de certa forma, reacendeu a polêmica do preconceito por aqui. A sociedade japonesa, de certa forma estigmatizou os brasileiros como responsáveis pelo comportamento inadequado dentro da comunidade.
Famílias inteiras ficaram desempregadas e impossibilitadas de conseguir um novo emprego, algumas delas até mesmo ficaram ser ter onde morar, uma vez que o imóvel que estavam utilizando pertencia a empreiteira responsável pelo contrato.
Rapidamente começaram a pipocar histórias sobre brasileiros que estavam passando fome e que, em pleno inverno, morando em carros e barracas.
Apesar do governo possuir apartamentos públicos, os quais poderiam acomodar os desabrigados com aluguéis mais baratos, o governo demorou a se posicionar favoravelmente aos estrangeiros. Na província de Aichi, por exemplo, foi alegado que a comunidade japonesa de alguns bairros, através de suas associações de moradores, declararam que não queriam mais brasileiros residindo no local. Segundo eles, os estrangeiros não respeitam as regras da disposição do lixo e são muito barulhentos.
Esta situação revoltou e dividiu grande parte da comunidade. Muitos foram as ruas protestar e revindicar seus direitos ao trabalho e moradia, outros formaram associações visando buscar um maior diálogo com os japoneses e procurar uma forma de consertar os problemas decorrentes desta convivência conflitante.
A crise econômica, de certa forma, reacendeu a polêmica do preconceito por aqui. A sociedade japonesa, de certa forma estigmatizou os brasileiros como responsáveis pelo comportamento inadequado dentro da comunidade.
Mas e os japoneses? Será que todos respeitam as regras da comunidade?
Será que todos os problemas relatados acima são culpa exclusiva dos estrangeiros que, trouxeram ao Japão o caos e a desordem de suas cultuas?
Será que todos os problemas relatados acima são culpa exclusiva dos estrangeiros que, trouxeram ao Japão o caos e a desordem de suas cultuas?
Estas perguntas, geralmente são levantadas pelos próprios estrangeiros uma vez que, aos olhos dos japoneses parece haver um consenso em relação aos culpados.
O governo japonês tem, nos últimos anos, procurado amenizar estes problemas, porém, o diálogo entre estas duas culturas tão distintas também enfrenta outra barreira: a da língua.
Muitos folhetos e materiais, traduzidos para o português, possuem um conteúdo equivocado oriundo de traduções literais do Japonês para o português, sem a devida adequação das mensagens exploradas para a cultura brasileira. Existe um volume grande de materiais proibindo e orientando o brasileiro a convivência harmônica dentro da comunidade, mas poucos ou quase nenhum orientando-os sobre seus direitos trabalhistas.
Claro que, dentro de uma comunidade, por mais homogênica e correta nos seus hábitos e costumes, existem indivíduos que não respeitam o sistema. Isso não é diferente entre os japoneses e no dia-a-dia, não é difícil encontrar alguns deles realizando pequenas infrações, como jogando lixo em local inapropriado, ou tomar conhecimento crimes hediondos praticados.
A sociedade japonesa não é perfeita e ainda é forte a resistência dos mais tradicionais em aceitarem os estrangeiros. Por outro lado, os brasileiros que vivem no Japão, precisam urgentemente adaptar-se aos costumes locais. O diálogo e o respeito pelo modo de vida japonês parece ser o caminho mais fácil para uma convivência pacífica. Afinal de contas fomos nós que escolhemos vir morar na Terra do Sol Nascente.
O governo japonês tem, nos últimos anos, procurado amenizar estes problemas, porém, o diálogo entre estas duas culturas tão distintas também enfrenta outra barreira: a da língua.
Muitos folhetos e materiais, traduzidos para o português, possuem um conteúdo equivocado oriundo de traduções literais do Japonês para o português, sem a devida adequação das mensagens exploradas para a cultura brasileira. Existe um volume grande de materiais proibindo e orientando o brasileiro a convivência harmônica dentro da comunidade, mas poucos ou quase nenhum orientando-os sobre seus direitos trabalhistas.
Claro que, dentro de uma comunidade, por mais homogênica e correta nos seus hábitos e costumes, existem indivíduos que não respeitam o sistema. Isso não é diferente entre os japoneses e no dia-a-dia, não é difícil encontrar alguns deles realizando pequenas infrações, como jogando lixo em local inapropriado, ou tomar conhecimento crimes hediondos praticados.
A sociedade japonesa não é perfeita e ainda é forte a resistência dos mais tradicionais em aceitarem os estrangeiros. Por outro lado, os brasileiros que vivem no Japão, precisam urgentemente adaptar-se aos costumes locais. O diálogo e o respeito pelo modo de vida japonês parece ser o caminho mais fácil para uma convivência pacífica. Afinal de contas fomos nós que escolhemos vir morar na Terra do Sol Nascente.
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| Multirão de limpeza do Conjunto Habitacional HOMI, organizado e realizado por brasileiros em março de 2009. [5] |
Referências
- Imagem criada por André Guilherme, para o livro: "Nossas Raízes - 100 anos de integração Brasil - Japão", 2008. Os textos deste livro foram elaborados pelos alunos da Escola Comunitária Paulo Freire (ECOPAF), Instituição mantida pelo Centro Latino Americano Homigaoka (CELAHO).
Aichi-ken, Toyota-shi, Japão
Escola Comunitária Paulo Freire - O evento "Viva! Brazil Day!" foi realizado no dia 14 de junho de 2008, no Estádio de Toyota, durante as comemorações do Centenário da Imigração.
Boletim Informativo Koho Toyota - Link para o site da Embaixada do Brasil em Tóquio
- Link para o site Janela Dekassegui
- Multirão de limpeza do Conjunto Habitacional HOMI, organizado e realizado por brasileiros em março de 2009. Uma tentativa de integração com a comunidade japonesa local. Participaram deste multirão moradores do conjunto, além de integrantes da Escola Comunitária Paulo Freire.
Associação Brasileira Homigaoka
















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